2021: Como desejamos ingressar? 

Com o encerramento de um árduo ano que foi 2020, nos perguntamos inevitavelmente como será o ano seguinte e que reverberações pandêmicas ele trará consigo. Transformações não apenas de ordem social e econômica, mas também relativas aos desafios e reformulações pessoais.

A pandemia nos fez descortinar dores ocultas, relacionamentos que estavam na corda bamba caíram e os que estavam em modo espera, se assumiram.

Globalmente, começamos a jogar luz, debater e questionar com merecida seriedade tópicos de imensa relevância: de que maneira temos vivido os papéis de gênero e parentalidade, consumo e desperdício, família e isolamento, poluição e meio ambiente, home office e homeschooling, moradia, deslocamento e qualidade de vida?

Aliás, fomos literalmente obrigados a parar – num silêncio ensurdecedor para uns e reconfortante para outros – a fim de repensar a vida e o que o viver representa para cada um de nós. Tudo o que conhecíamos como terreno sólido, tremeu e ruiu.

Como já dizia incansavelmente em seus livros e palestras, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a mudança é a única coisa permanente, e a incerteza, a única certeza. O conceito de modernidade líquida cunhado por Bauman nunca foi tão real e palpável quanto neste momento.

Nada veio pra ficar, tudo é líquido. Qual é a lição que o navegar nesse mar turbulento de 2020 nos deixará? Para cada indivíduo, essa árida travessia tomou formas e assumiu significados diferentes, para uns significou perdas, solidão, desamparo, pânico e para outros significou desafios, recriação e descobertas.

Nunca foi tão consumido material de autoajuda como agora, livros e lives de filosofia e saúde mental, assim como espaços de diálogo sobre temas da psique humana, cresceram exponencialmente.

Este ano ficou evidente como tudo e todos em nosso entorno nos impacta subjetivamente, e a maneira como nos colocamos em relação também pode afetar o outro diretamente, contaminando-o ou o protegendo.

De que forma desejamos seguir desenhando nossa própria jornada pessoal, visto que fazemos parte de um mundo em constante transformação, é ainda um enigma para muitos de nós, justamente por isso a necessidade de olhar para dentro se tornou inadiável, a procura por psicoterapias cresceu a olhos vistos numa tentativa de encontrar um farol no meio da tempestade de 2020.

Dar voz àquilo que sufoca é a maior prova de coragem de enfrentar o que desconhecemos de nós mesmos, mas que está lá, esperando para ser decifrado.

O que de nossas subjetividades estava sendo abafado e que a pandemia desvelou?

O processo psicanalítico proporciona esse lugar de voz e escuta, mergulho em seu próprio universo subjetivo e sobretudo proporciona o diálogo interior com novas possibilidades de viver e de ser. Oferece a oportunidade para trabalhar algo dentro de nós de forma que a nossa união com o outro seja mais harmônica e menos desafinada.

A psicanálise possibilita questionamentos e uma chance de formular respostas sinceras e autênticas para consigo mesmo e sobre si mesmo; bem como oferece àquele que se dispõe, uma chance de dar um basta naquilo que dói.

Na virada do ano, que representa simbolicamente um marco entre o que ficou no passado e o que ansiamos para o futuro; até mesmo os mais céticos fazem promessas e guardam suas esperanças em segredo, e os mais supersticiosos divertidamente anunciam suas famosas resoluções de fim de ano agregadas aos rituais que tragam boa sorte pro próximo.

Independentemente da crença, ritual ou época no calendário, podemos e devemos continuar sonhando.

Pois o sonho é o que formata o desejo, o desejo de construir novas realidades, seguir em frente se recriando e sobretudo a nossa própria maneira de ser feliz.

Autora: Andreia Hollenstein

CRP:05/36484 

Psicóloga Clínica & Psicanálise